“Pelagus”
I
No pélago estelar
Voga a nova raça de navegadores
Pelos mapas astrais
Através de computadores
Na sua busca consonântica
De in-
——-completude
——-finita
II
De olhar fixo no chão
Eratóstenes
Media o comprimento
Da sombra das suas varetas.
De olhar fixo no chão
Eratóstenes
Observava o universo
E calculava o
P_e__r___í____m_____e______t_______r________o
Da ambição humana.
III
Um feixe de luz
Atravessou o espaço
E iluminou-me as retinas infantes,
Rasgando o vazio
Como rasgasse o mar azul
E abrisse ondas de espuma
Com a sua quilha hidrodinâmica.
Ei-lo no céu da noite,
Brilhante,
Procurando porto de abrigo
No meu olhar astrólatra.
IV
No vazio do universo
A mente viaja
Na consciência da sua pequenez
E da sua mortalidade.
E o universo por sua vez
_________mente a viagem
Inversa
Como, se partindo do seu ponto de origem,
Se volatilizasse numa única célula cerebral
Do voyeur que o espreita
Telescopica-
________-mente.
V
Protões,
Neutrões,
Electrões,
-ões numa frenética
Pulsão
Friccionando a nua matéria
Original
Até um estado de
Absoluta
Excitação.
E uma simples telefonia
Em FM
Consegue captar
O universo
Primordial
A gritar.
VI
Crê-me,
Há uma adoração acrónica
Na rima assonântica
Dos nossos corpos celestes
Se despidos das vestes
Com que o Cosmos nos tapou.
No espaço sideral não há espaço
Para a hesitação.
O que teus astrolábios me mentem
Desmentem
Os olhos anosos e sábios
Das estrelas
Que alumiam a tua
Face
E que vêem
Para lá
Do lado lôbrego da lua.
VII
Descobri o tempo e a ausência dele
Na pele branca
De uma brancura clara de ovo
Quando embarquei
De olhar cândido e novo
No seu corpo nocturno e viajei
Com a ponta dos dedos
Seguindo a direcção das veias que quase brilhavam
Como estrelas através do seu corpo translúcido.
E a manhã trouxe a sua luz
A reflectir-se no cabelo loiro
Supernova explosão nas retinas encandeadas da minha saudade,
Como velas cheias de vento.
E encontrei deus ou a sua ausência
Na alma
Para lá do azul celeste dos seus olhos
Que pingavam lágrimas com sabor a mar
Quando nos fitámos sem pestanejar
Durante mil anos-luz.
E para lá do azul celeste dos seus olhos
Contemplei o vazio
Como uma auto-estrada sobre um mar negro
Desembocando no desconhecido.
VIII
Aceso o navio,
Projectam-se no espaço sem rugas
Os dedos e as mãos que outrora
Saborearam o mar
Mas que agora,
De água no bico,
Zarpam para alcançar o infinitesimal
Quinhão
Da vontade humana
Sem Rei nem formão.
IX
Ainda são vivos
Os velhos Velhos do Restelo
Na zona que cobre e descobre
Fazendo navegação à cabotagem.
E as suas palavras podem ser ouvidas
Porque às vezes eles lançam-nas ao vento
E nas noites de ventos contrários elas andam no espaço à deriva
Incapazes de navegar à bolina.
X
Adriçada
Agiliza-se a ampulheta
Com palavras por grãos de areia
Sob os pés
E salta,
Aberração da luz,
No vazio faraónico
Do túmulo tutancamónico
Do olhar de Ramsés.
XI
Vadiando na galáctica madrugada
Encontrei
Como encontrasse uma velha moeda alijada
_______-me
Na sombra projectada
No mar
Pelas estrelas
De mim:
Sou o poeta de longos cabelos e alma infinita
Às vezes
E às outras
O poeta sem alma cujos cabelos se espraiam pelo infinito.
XII
Talvez haja um ponto no universo
Em que a perspectiva é tal
Que se consegue
Provavelmente
Escrever uma teodiceia
Se conectarmos as estrelas
Sob uma determinada ordem
Pré-estabelecida.
Mas se não estiver lá ninguém
Quem a leria?
E ainda que lá esteja alguém…
Alguém
Se importaria?
XIII
Oito vírgula três minutos
É o tempo estimado
Para que a luz do sol
Ilumine o céu
E chegue à Terra.
E a ti?
Qual é o tempo estimado
Para que recebas o meu
Amo-te
Em perfeitas condições de recepção
Sem escarcéu,
Sem ruídos ou interferências?
XIV
Num universo cheio de nada,
O que procuramos?
Até que fronteiras
Estamos dispostos a imaginar
Se a última fronteira
Não é solo firme
Onde o vigia no cesto da gávea
Possa gritar
Terra à vista?
XV
No silêncio da noite perpétua
Perpetua-
______ -se a ausência de sonhos.
Conto estrelas para adormecer
À medida que as vejo desfilar, como aljôfares, a granel
Enquanto singramos para o abissal céu
Na quadrícula de pixels
Como faúlhas de fogo fátuo
Procurando a nossa nova Alexandria.
XVI
Descobre para lá do brilhante azul
Mar estanhado
Do celeste véu
Que te cobre, amor.
As estrelas que se escondem
Para lá do que consegues ver
Traçam o perfil de um rosto
Que te fita do longe:
O meu.
XVII
Avança o vaso
Em missão de pacífica descoberta
Com a flâmula (des-)
-coberta,
O olho humano em cansada arfagem pelo horizonte
Enquanto o
A-
_ -ne-
_____-mo-
_________-ci-
____________-na-
_______________-mó-
___________________-gra-
_______________________-fo
_______________________Regista a velocidade e a direcção do vento
_______________________Automaticamente.
XVIII
Anda para o caminho!,
Grita a voz comandante,
A pé de galo,
Aos ouvidos
Ensurdecidos pela acção galvânica
Do homem do leme.
À flor do espaço
Não podemos permanecer a pairo,
Ouvindo a bela voz das sereias
Cantando em seco.
XIX
Sangra-se a nuvem
Perante a órbita branca e elíptica
Do olho que a vela.
Sagra-se a luz da vida dos que no mar morreram
E dos que no espaço viverão.
XX
Da planura azul do teu regaço
Sereno, carinhoso
E maternal,
Nasce negro e gigantesco abraço
Violento, apaixonado
E mortal.
XXI
Lento mas inexorável
O nimbo avança
Até se expandir a todo o espaço.
Só depois, se vir, virá a bonança.
E eu, Lucas Nefelibata,
Desafio o acto de deus
No momento da procela,
O peito pando de esperança,
De candeio por olhar.
XXII
Desperta
O nebuloso acaso
Que encerra-
-nos corações enterra
O porvir
Da névoa incerta
Que trai o cair
Da noite
Sempre certa
Piscando relampejos
No seu sinal
Ora exposto
Ora eclipsado.
XXIII
Aqui jaz naufragada uma confissão escrita para não ser lida.
XXIV
Imponente,
A figura de proa
Rasga a zona fótica,
Os olhos luciferinos aclarando
O espaço negro à sua frente
Sirgando às cegas
As palavras tombolares
Que jamais alguém tomara pela mão
Enquanto uma fiada de sondas
Percorre o rumo pré-determinado,
Serialmente,
A intervalos regulares,
Sem nunca devolver o eco,
Perdendo-se numa zona de silêncio.
XXV
As retinas cansadas
Descobrem para lá das pálpebras cerradas
O Fogo de Sant’Elmo
No tope do mastro in-
-tenteado
Opondo a sua vela imaculada
À vontade quebrada do espaço.
XXVI
Os vítreos cones partidos,
Destroços à deriva,
Derramam a sua areia sobre a sirte
Avistada.
Há um planeta de areia
A acenar
Aos corações partidos
Dos novos argonautas.
Dali já não sairão.
O nosso tempo esgotou
Mas não sem que encontrássemos o nosso paraíso:
Nova Alexandria, Cleo-
-pátria.
XXVII
Rumo ao desconhecido
Largamos âncora
Achando fundo
No ventre da preia-mar
Onde duas ondas se tocam
E se tornam uma.
XXVIII
Sob o ferro somos
Aqui, ali, que importa onde?
Ainda que mil mares abríssemos
Nunca deixaríamos de acometer o teu olhar
Negro e azul,
Cleopátria.
Somos sob o ferro
Escravos e livremente ancorados
Na eterna flutuação oblíqua do teu ventre, oh Mátria,
Procurando o porto universal.
XXIX
Nu ábaco da maré que pre-
-enche o trilho sideral que zingamos
Mente a veia nílica
Do corpo no de Cleópatra
Violentada por mil balaústres
Balaustrada pelo vento vil que nos soprou até aqui.
No espaço aberto o sangue e o sémen têm cor mas
Não têm odor
Nem gravidade.
XXX
A viagem já não será redonda,
Nunca mais.
Assim, renuncio a forçar o tempo
_________…._a regressar a casa,
Entrego-me moribundo no espaço
Às marés quentes do teu regaço
Onde o galear das ondas convida
A aceitar o prazer do amor
…………………………_e da morte
No horizonte obscuro do teu olhar
Repleto de vida.
XXXI
Fôssemos filhos de um deus
Omni-
…._._-presente
…._._-sciente
…._._-potente
E seríamos sempre abraçados com a terra
Acachapados à sua vontade paterna.
XXXII
Há uma árvore que é uma floresta
No planeta a que dei o meu nome,
Uma árvore com raízes de espuma
E de sal
Com folhas que são cascos naufragados
E outras que são cascas de búzios ocas
Onde se pode ouvir o som do vento
Por entre a folhagem do mar.
E se a subires até à copa
Podes ver, ao longe,
Perto do horizonte,
Na leiva,
O corpo nu dos búzios
A sonhar.
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