“7 Poemas, Uma Vida” (poesia)
I
Nunca, até hoje, da minha poesia
Se alimentaram muitos gatos
Ou nela saltaram ou ronronaram…
Talvez seja hoje o dia
Certo para fechar as cortinas
Das minhas janelas
E chamar o vadio que brinca na rua!
Vou deixar só a porta aberta
E um rasto de odor a peixe,
A carne despida de escamas, nua,
Como um longo e lascivo verso alexandrino,
Trilho que conduz
Um antigo instinto felino…
Quando dois olhos brilhantes
Reflectores da pouca luz
Saída do meu poema,
Assinalando a sua presença
À porta do meu poema,
Se encontrarem com os meus,
Vou pôr uma mantinha
– velha mas quentinha! –
Sobre as minhas pernas
E chamá-lo:
“B’ch b´ch b´ch b´ch b´ch b´ch
Anda cá bichano”…
E quando ele, pata ante pata,
Dançando e saltitando,
Se vier enroscar no meu colo
Sob o jugo da minha mão
A acariciar-lhe um lar no pêlo,
Vou simplesmente miar-lhe ao ouvido:
“Gato, amo-te
Como tu amas a liberdade,
Um ratinho de corda ou o novelo de lã”…
II
Dorme,
Incauto dos perigos do mundo
Lá fora,
Exausto pelos cansaços aristocratas
De quem ignora
Que a vida pode ser filosofada
Para além do comer a horas
Ou do correr atrás das gatas.
E quando, de quando em quando,
Suspenso o sono
E semi-aberto um olho, às vezes os dois,
Fita o dono,
Suspendem-se também o tempo
E os perigos do mundo
Lá fora,
Para voltar a semi-cerrá-los
E a enroscar-se fragilmente,
Confiado descuido,
No colo dormente
De quem o ama…
III
Às matinais duas de um Janeiro frio,
Por cima da cidade dormente,
A noite geme com cio.
Onde está toda a gente?
Num bar talvez,
Mais um copo vazio…
Talvez no lar concupiscente
Longe do olhar alheio
Onde a moral perde o freio
E o corpo sente o que a vergonha lhe mente…
Ei-los, na rua,
Belos, loucos, felinos…
Ele, pardo como a noite que os cobre,
Cobre-a a ela, de pelagem nívea,
Com uma pesada e sensual brutalidade
Que tresanda à mais bestial lascívia…
Másculo e robusto, ele
Deposita, decidida mas ternamente
Uma longa e dolorosa dentada
No pescoço frágil da sua fêmea dominada.
Consumado o amor que eles nunca mais lembrarão
Separam-se os corpos
Mas permanecem os líquidos e os cheiros em comunhão.
Ele para um lado, ela para outro,
Sentados na sua cama de lençóis de asfalto,
Limpam-se, cada qual a si mesmo,
Sem mais ternura, sem mais querer…
Quando aprenderá o homem que a vida
Não mais é que comer, beber e foder
E não necessariamente por essa ordem?
Quanto mais tempo se iludirá o Homem
De que o amor sabe melhor se pecado
E expurgado vezes sem conta
Pela absolvição de um acto não confessado?
IV
Descansa, fatal, no intervalo invisível
Do mosaico formado sob o peso
Dos seus músculos confundindo-se prolífico
Na vegetação sonhada que esconde
O seu instinto matador,
A brancura caçadora dos seus caninos…
V
O miau abre
Sensual e furtivamente
A sua boca sem fundo
Enquanto o pobre piu-piu
Se entrega a um tango
Sem movimento
Tendo por parceira a própria morte.
VI
À janela, olha,
Observador,
O mundo como se desenrola
Perante seus olhos de gato-menino
Farto do conforto do quarto
Curioso de aprender o que não sabe.
Da esquerda para a direita, uma senhora
E um senhor, lado a lado, sem conversar;
E no sentido inverso, duas crianças a brincar;
Atrás de um carro estacionado um cão
E os carros na estrada passam sem parar,
Dia e noite…
Dia após dia…
Noite após noite…
Semana após semana…
Mês após mês…
Ano após ano…
Nuvem após nuvem, ora secas ora carregadas de água,
Ah como gostaria de se molhar e de fugir à chuva!
Sol após sol, ora tapado ora descoberto,
Ah como gostaria de sentir a luz quente na pelagem!
Vida após vida…
E o gato-menino
Um dia descobre
O seu reflexo no portal vítreo
Que reflecte o reflexo do seu olhar felídeo
Onde se reflecte assanhada a sua alma:
O gato-menino é já gato-velho,
Tem o pêlo gasto e a alma assanhada
Domesticada…
E o gato, menino velho, velho menino, gato!,
Vira as costas à janela,
Vai beber água na sua tigela
E procura um sítio escuro para dormir
Em silêncio…
VII
Vejo-o no vazio,
Sinto-o na ausência,
Sombra saltando na sombra,
Nas sombras se movendo
Elegante,
Felino,
No silêncio da memória que o não esquece
Fora da moldura incapaz de o prender
No espaço
Ou no tempo…
Ouço-o com a pele
Arrepiada ao som das suas pegadas
De rei-caçador
Farejando a sua presa imóvel,
Invisível – quão invisível –
Inexistente excepto no odor a brincadeira
Que o dançar serpenteante do seu rabo denuncia…
Sinto-o na ausência
Nos cantos escuros da casa que foi sua
E da memória que o não esquece…
Tenho-o comigo
Aconchegado no coração
Como aconchegado estava da primeira vez
Que escolheu para sua cama o meu colo
E fez da minha pele e da minha carne
A pele e a carne suas
Amassando pão com as garras afiadíssimas
Na pele e na carne nossas.
A minha alma cheirou as janeiras,
Deixou-me com as memórias e o fio de juta
E não sei se alguma vez irá voltar…
”7 Poemas, Uma Vida”, por Alexandre Homem Dual